Artigos desta Edição

Dra. Juliana N. Torres Goulart
Graduada em medicina veterinária pela UENF
E-mail: jvetorres@hotmail.com
ODONTOLOGIA EQUINA

Ao contrário do que se pensa, a odontologia em equinos não é prática recente. Os dentes dos cavalos começaram a ser avaliados quando os equinos passaram a ter valor comercial. Registros históricos informam que em 1.200 a.C. os cavalos já eram usados pelos chineses e pelas civilizações egípcias para tração, transporte, guerra e alimentação. Apesar de ter havido muitos avanços na odontologia veterinária, só nos últimos trinta anos é que passou a ser reconhecida como especialidade médica veterinária. Com esse reconhecimento, foram aprimoradas as técnicas e os equipamentos para cuidados dentários, e com o avanço dos recursos tecnológicos, muito se descobriu sobre patologias orais, características da dentição e problemas dentários.

Nos países desenvolvidos, os cuidados odontológicos são rotineiros para os cavalos, principalmente, os de esporte, em que as vitórias são alcançadas com o cuidado de muitos detalhes. Contudo, a importância de garantir a saúde dentária dos animais vem-se tornando reconhecida pelos criadores brasileiros, sobretudo, pelos criadores campistas de todas as raças, como as de tração, velocidade, marcha, salto, dentre outras.  

Mesmo com o desenvolvimento da odontologia veterinária, muitas desordens ainda não são diagnosticadas ou são negligenciadas. Isso pode ocorrer, porque as alterações se instalam gradativamente, e o equino pode se adaptar a elas, tornando difícil a percepção dos sinais clínicos. Por isso, é necessário exame preventivo para diagnóstico precoce das afecções dentárias, antes que ocorram complicações clínicas e significativas perdas econômicas, que se refletem, principalmente, nos casos de: cólicas, estomatites, glossites, sinusites, infecções secundárias, nas perdas em desempenho e aceitação de comandos através da embocadura, por causa da dor. Animais com dor na cavidade oral adquirem vícios que, antigamente, poderiam ser considerados intratáveis. Alguns vícios comuns que podem estar relacionados à dor oral são: molhar a ração e deixar no cocho, jogar ração na água, brincar com a água, "mastigar" a embocadura, levantar a cabeça quando um comando é dado, agressividade e outros. Por isso, todo animal deve ser avaliado por um especialista para que seja identificado o problema e, então, ser tratado e manejado da forma correta. Geralmente, o procedimento exige não só conhecimento prévio de anatomia e fisiologia equinas, como também, diferentes tipos de sedação e anestesia. Em casos extremos, pode ser necessária anestesia geral do paciente e cuidados pós-operatórios como em qualquer outra cirurgia. A especialização do profissional é muito importante, devido à grande variedade de patologias orais que podem estar presentes. Para cada uma, é necessário tratamento específico e conduta diferenciada. As patologias orais mais encontradas são: pontas, feridas nas partes moles, ganchos, ondas, rampas, fraturas em molares, cáries infundibulares, cálculo dos caninos, desnível das arcadas, gengivite, desvio da mandíbula e fraturas em incisivos. A incidência dessas alterações pode variar de acordo com a raça, o tipo de manejo, a alimentação e o tipo de atividade desempenhada pelo animal.

Há ainda um equívoco muito comum de ocorrer, em relação a “travagem”. Denomina-se corretamente travagem o que se refere a palatite (inflamação do palato duro), afecção pouco comum. Relaciona-se a palatite ao emagrecimento e à dificuldade de apreensão do alimento e de engorda dos cavalos, o que normalmente são sintomas de problemas dentários ou de doenças sistêmicas. O aumento de tamanho do palato é, na maioria das vezes, somente um edema, encontrado em muitos cavalos, especialmente, em algumas fases da vida, quando ocorre atraso das trocas dos dentes de decíduos (de leite) pelos dentes permanentes, ou quando há outros problemas relacionados à cavidade oral do equino. O edema no palato, na maioria das vezes, é apenas reflexo de um problema em outra parte do corpo. Essa confusão pode acabar expondo o animal a um tratamento cruel, que consiste em queimar ou cortar esse aumento de volume do palato. Isso nunca deve ser feito, mesmo que seja palatite propriamente dita. A palatite, como qualquer outra inflamação, deve ser tratada com drogas antiinflamatórias, à escolha do médico veterinário, de acordo com a gravidade do caso e com o animal.

O material básico para a prática odontológica deve ser um bom abridor de boca, uma boa fonte de luz (fotóforo), seringa de grande volume ou bomba, espelho, espátula, boticões, alavancas apicais, grosas manuais e canetas odontológicas.

O ideal é que os exames da cavidade oral sejam iniciados o quanto antes nos potrinhos, para evitar problemas futuros. Cavalos que estão sob cuidado constante apresentam melhor desempenho, mastigação e digestão, fazendo um melhor aproveitamento do alimento, diminuindo o risco de cólica e aumentando o conforto da montaria. O tratamento periódico deve ser realizado duas vezes por ano. A odontologia promove melhoras notáveis nos animais nos aspectos físico, atlético e psicológico, criando condições para que o cavalo desenvolva todo o seu potencial.