Em uma sociedade individualizada, cujo “olhar” para o outro se torna cada dia mais raro, percebemos a indiferença não somente nas desigualdades sociais, mas também, quando é direcionado os “transexuais”, é aí que muitos desviam rapidamente o foco de sua visão e fingem não enxergar a realidade dos fatos. Vivemos numa sociedade que clinicamente marginaliza-os de dia, e ao cair da noite dá ênfase a sexualidade, homofobias, fantasias, desejos que não são revelados dentro do núcleo em que vive normalmente. Fora de seu hábitat a ética, a ideologia e a moralidade vão para o espaço.
Quero relatar (com algum conhecimento de causa) as angústias e o medo dentro de um universo fechado que ao longo da minha vida consegui conquistar a confiança, acolhendo-os e compartilhando o difícil caminhar dentro da sociedade. Aos poucos, fui convencendo-os a fazer um teste para sorologia de HIV e outras patologias relacionadas às DSTs (doenças sexualmente transmissíveis).
Respeitar seus limites é o principio básico. Ao nível de senso comum é difícil compreender a dor e o sofrimento que o transexual sente ao assumir para si próprio que são vistos pela maioria dos cidadãos como criaturas que vivem à margem de uma sociedade que os exclui, e desconhecem que esta exclusão é um dos fatores determinantes em um destino cravejado pela dor.
A maioria das transexuais abusa da ingestão de bebidas alcoólicas e dos cigarros. Exageram na maquiagem e recorrem a cirurgias clandestinas com silicone industrializado (colocados por elas). Neste universo, se deixam ser exploradas por “homens” que elas assumem, acreditando em “amores eternos” que, invariavelmente terminam em violências, doenças e mortes. Homens que fora deste mundo figuram-se como machões, viris e velam sua real identidade.
Viajar para Europa e ganhar dinheiro é um sonho, e ponto! Sequer questionam fatores como:
- Frio,
- Solidão,
- Dívidas,
- Ilegalidade
* Ou até mesmo que podem chegar a óbito sem qualquer respaldo (tendo oportunidade de sair do país, não pensam duas vezes).
O dinheiro é como se fosse o passaporte para a aceitação social, onde o metal em suas fantasias é a única saída para serem aceitas como seres humanos.
O primeiro trabalho é quase sempre a prostituição onde procuram as mais antigas transexuais que lhes repassam como ritual básico os hábitos. E neste fio condutor vão construindo algo que já se encontrava dentro de si mesma.
Não vou dissertar sobre questões biológicas de fórum, de disforia, de gênero, de adequação de sexo, que hoje, graças a ciências, são direitos garantidos por lei. Quero abordar minha relação com elas, o que viabiliza a orientação, a ser atendidas em redução incontestável de exames periódicos para uma possível profilaxia, e quando não muito, que elas possam aderir aos medicamentos para as DST.
Uso de preservativo é uma das abordagens mais frequentes, o qual insisto para que use sempre, em todas as relações sexuais!
O acesso a mim, de maneira libertadora é fácil, sem medos, sem julgamentos e vem de encontro a uma realidade crucial, onde observo que a relação estreita é difícil para se manter. Só mesmo com empatia para conscientizá-las sobre ações educativas constantes, provoca tais transformações e pode parecer fantasiosa; mas, o que eu quero nesta relação é construir uma parceria sólida que vai além do pragmatismo. Sei que não há mágica, porém, são 22 anos de estrada, acompanhando-as nesta trajetória rumo à aceitação e a autoestima de pessoas que vão colhendo marcas profundas em suas vidas.
Em um universo complexo e fascinante ao mesmo tempo, tive a oportunidade de ser aceita e acolhida. Para mim, justiça social é a igualdade de parâmetro a serem seguidos por todos em um país que escancaradamente privilegia a elite, e sem menor escrúpulos vão jogando de lado pessoas impotentes e frágeis ao seu próprio destino.
Esta pequena abordagem é para que o leitor possa refletir sobre as nuances que envolvem o dia a dia das transexuais, e nesta reflexão, encontrem sentimentos de solidariedade que possam fazer uma fusão de compreensão para poder acolher estas pessoas que simplesmente querem ser felizes. |